Esse negócio de imigração começa muito antes de você por os pés no território alheio. A tensão se inicia quando você recebe o bendito visto - aquele que você pagou quase um salário minimo pra conseguir. Lá está escrito que apenas o fato de você ter o adesivo colorido pregado na folha do seu passaporte não garante a sua entrada no país. E você já começa a se perguntar: Comassim Bial?
Então você está dentro do avião que você pagou caríssimo para ter direito a um jantar furreco e resolve tirar um cochilo porque o voo Manaus- Miami é a cara da classe média e a Tam não oferece sequer uma televisão de plasma - pasmem: a bixa é de tubo ainda. Pasmem mais: o avião é do tempo em que se podia fumar dentro.
Já que não há nada mais interessante pra fazer, você resolve descansar os olhos agarrando-se ao"mini travesseiro" xexelento que lhe foi ofertado como cortesia da Tam e é acordada por uma aeromoça estridente que passeia pelo corredor com um chumaço de papel branco esbravejando: "Quem é visitante tem que preencher esse formulário." Aprendam: aeromoças jovens, simpáticas e legais só existem no Brasil. Fora, elas são velhas, chatas e irritantes.
Aí, sem você dizer nada ela joga o papel no seu colo. Com as lentes ainda pregando você tateia no escuro- porque o dia não amanheceu, o café não lhe foi servido, mas o maldito formulário tem que estar preenchido- procurando por caneta, passaporte, e por último, lembra de ligar a luz.
Este é o segundo momento mais irritante da viagem. Sim, porque era para você saber como preencher um negócio desses decorado já que você já foi uns milhões de vezes para lá. Mas não se sabe se é o sono, a fome ou a burrice, você fica olhando as perguntas e achando que as letras estão formando algo em russo.
Não dá para entender muito bem o que você tem que declarar, fica se perguntando quanto mesmo de cash está levando. Burramente mais uma vez, você chama a aeromoça que lhe cospe as respostas e sai. Aí não lembra do nome do hotel que vai ficar e mais uma vez busca na bolsa que está nos seus pés que já estão inchados por passar tanto tempo na mesma posição.
Aliviada por ter terminado de preencher algo que talvez vá definir sua entrada no país, você se prepara para dormir o sono dos cansados. E eis que a aeromoça grita mais uma vez: tem que preencher esse outro formulário para entregar na alfândega.
E começa tudo de novo. Estarrecida ao ler as perguntas que querem saber se você está levando estrume, esterco, plantas nativas de seu país, drogas e afins, você preenche tudo meio boca já de saco cheio e volta para o seu sono.Mais uma vez a criatura passa anunciando que vai servir o café, já jogando a bandeja na sua mesa. Quando você menos espera, ela já passa recolhendo porque o avião irá pousar.
E como nada na vida é fácil e você está viajando com brasileiros que não conseguem respeitar uma fila, as pessoas levantam-se antes de avião parar já pensando na fila da imigração para logo depois escutar o comandante esbravejar mandando todo mundo sentar que o avião não parou ainda.
Pois bem, eis que você está em solo americano. Mas ainda não, porque aeroporto é considerado zona internacional. Você está com um pé dentro e outro fora. Como você precisava urgentemente ir ao banheiro depois 8 horas sem sequer levantar a perna, a fila já está extensa. De posse de todos os documentos corretamente alinhados você espera e espera. A moça não- simpática anuncia que você é a próxima.
Aí sobe aquele frio na barriga quando você pensa que é agora ou nunca. E se o oficial da imigração tiver acesso à sua vida no Brasil e souber que você mente até no formulário médico quando a pergunta é sobre seu peso?
O moço com cara de imigrante latino pede seu passaporte, pergunta o que você faz, quanto dinheiro tem, de onde você é , abre o sorriso quando vê que você é do Brasil e pergunta quanto tempo iremos ficar. Meu marido puxa conversa falando sobre as belezas do nosso país. Eu fico aliviada que está dando tudo certo. Mais ou menos
O oficial manda colocarmos dedos que o sistema escolhe aleatoriamente na maquininha para ler nossas digitais. Minhas mãos sempre suadas dificultam a leitura, eu dou um sorriso amarelo, limpo a mão na calça e vamos de novo. Não dá certo. irritado, Ele pega meu dedo e aperta contra o dispositivo. Ele carimba com força nossos passaportes e estamos na América.
Mas não acabou. A alfândega é logo ali na frente. Jogamos nossas malas ainda não muito pesadas no raio-X e entregamos o papel dizendo que não trazemos nada de duvidoso na mala.
No Canadá não é muito diferente. O moço com cara de indiano pediu a carta da escola e os formulários. E ele nos mandou para uma sala. Pensei: pronto! vamos pra sala da imigração.
Uma moça simpática pediu nossa papelada e haja demora. Comecei a pensar possíveis cenários de ser deportada. Voltaria para o Brasil ou para Orlando? . Minha cabeça começou a doer de fome e ansiedade. Não havia comida de graça no vôo e de tão nervosa não havia almoçado.
Finalmente ela nos chama. É agora, pensei eu. Ela começou se desculpando. Já achei estranho. Ela explicou que o consulado errou. Já fiquei tensa. O nosso visto deveria estar válido até março, mas o consulado só deu até novembro.
Mesmo sendo visto de múltiplas entradas, não poderia sair e voltar para o país depois de novembro.Como forma de compensação ela deu nossas permissões de estudo e trabalho até abril. Welcome to Canada, disse ela que me sorriu. Sorri de volta e entrei na outra parte da América do Norte.
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