Não pensem que um dia eu acordei e disse: Oba! Hoje eu quero esquiar!
Na verdade, não tive muita opção.
Um belo dia cheguei para trabalhar e quando abri meu e-mail havia uma intimação para todos irem a Blue Mountain, passar um dia divertido (disseram eles) praticando esportes de inverno, com tudo pago. Olhei para as outras pessoas do meu time esperando que elas tivessem a mesma reação que eu: NOOOO!
Só que não apenas elas já haviam escolhido qual esporte fariam, como algumas delas estavam super empolgadas. Fui checando para saber qual esporte cada uma havia escolhido. Uma tinha problema no coração e ia fazer sky cross-country. O diretor não esquiava e ia fazer outra coisa que não lembro. Outra, já era quase esquiadora profissional, iria para as trilhas intermediárias. A outra estagiária, minha chefe direta e o Coordenador da loja da Kobo no Canadá iriam esquiar. Por isso eu digo que não tive muita opção: o jeito era esquiar. Detalhe: as únicas pessoas que nunca haviam esquiado na vida éramos eu e o tal coordenador: ambos sul-americanos, nascidos e criados respectivamente na Colômbia e no Brasil (eu).
Tínhamos que chegar na Kobo às SETE DA MANHÃ para pegarmos o ônibus e irmos para a tal da Blue Mountain. Em dias normais, a gente só começava a trabalhar às 9, daí minha raiva inicial. Como sou muito sortuda, ao subir no ônibus, o único lugar disponível que havia era do lado da minha chefe. Não é que não goste dela, pelo contrário. Mas você ficar duas horas da sua vida ao lado de uma pessoa que você não tem muita intimidade, em plena sete horas da manhã, não é a melhor coisa do mundo.
Mas até que nossa conversa foi interessante, porque ela me contou sobre a vida dela na British Columbia, falou da família, do marido, dos gatos, sobre a viagem dela para Vegas com o marido. Ainda consegui avisar que ia faltar um dia de trabalho porque iria viajar para Quebec, quando minha mãe fosse me visitar.
Só que já eram quase nove e não havia nenhum sinal de Blue Mountain e eu já estava ficando sem assunto para puxar. Fomos ver no GPS e ela viu que o motorista haviam pego um caminho mais longo. o que era para durar uma hora e meia de viagem, já estava levando duas horas e pouco.
Fato é que chegamos e me deparei com um monte de formiga descendo umas montanhas. Olhando mais atentamente, vi que eram pessoas, na verdade. Já comecei a ficar tensa, porque não sou muito fã de altura e esportes radicais.
Na entrada recebemos nosso kit: um ticket para ir cadeirinha (assassina) que levava aos níveis mais altos da estação (Black Diamond era o super-avançado-emocionante-olimpíadas-de-inverno nível de esqui), protetor labial por causa do frio e vouchers para receber capacete, esquis e poles( que são as varas).
Avisaram que eu deveria ir com muita roupa porque era frio, a neve ia me queimar e tal. Fui com uma calça térmica, mais uma calça de yoga e coloquei a calça de esqui que uma amiga me emprestou. Além disso, uma blusa, um moleton, um casaco de frio e luvas de esqui. Ou seja, se eu conseguisse andar, já era muita coisa. Um instrutor me ajudou a colocar as botas que devem ficar presas aos esquis. Elas mais pareciam patins. Pegamos nossos esquis e finalmente chegou a hora: de fazer o curso inicial. Eu pensei: bom, isso deve ser igual a andar de patins. Eu estava muito enganada.
Primeiro você tem que aprender a tirar e colocar os esquis estando em pé. Depois, tenta equilibrar-se com um pé só. Aí tenta deslizar com um pé, para só depois aprender a parar. Quando você ainda está tentando se equilibrar nos dois pés, os instrutores, que são idosos e rabugentos em sua maioria, nos levaram para uma ladeira, porque eles achavam que a gente já sabia controlar a velocidade e parar. O segredo é andar com os esquis em forma de fatia de pizza e forçar os esquis para fora. NUNCA mas NUNCA mesmo desça uma ladeira com os esquis paralelos, a não ser que você saiba o que está fazendo. Para você que não entendeu nada do que eu falei, veja o vídeo.
Meu cérebro tinha ciência de todas essas técnicas, mas meu corpo não estava entendendo nada. desci com os esquis em paralelo, peguei velocidade e só não me joguei contra os outros ou caí de cara na neve porque afastei as pernas e consegui fazer a pizza de última hora. Resultado: eu não passei na prova. Meus coleguinhas foram praticar no Bunny Hill, que é o último estágio antes da graduação do curso de esqui para iniciantes, e eu fiquei com os outros losers.
A coisa boa era que os losers eram mais losers do que eu e não desistiam. Pelo menos eu não tinha levado nenhuma queda. Ainda. A véia chata me fez ir mais dez vezes antes de me passar pro Bunny Hill. Chegando lá, já com auto- estima decaída, a primeira atividade era subir a esteira sem cair. Acredite: um monte de gente cai nessa. E tudo que você tem que fazer é só inclinar para a frente. Lá em cima, o complicado é dar uma curva em cima dos esquis e se posicionar para a descida.
Fiquei pronta e linda, já toda suada e sem fôlego. Desci, completamente consciente do que estava fazendo, estava dando tudo certo. Eu estava arrasando. E quando cheguei no pé da ladeira, eu caí. Foi uma queda ridícula. O pior é que eles não ensinaram a gente como levantar em caso de queda. Então fiquei uma eternidade lá no chão, tentando levantar, com um monte de gente desviando de mim. A velhinha me viu, veio até mim e disse: levante-se. Eu já indignada falei: eu não consigo, senão teria levantado. Ela: retire os esquis.
Adendo: Para isso, eu tinha que usar a varinha e apertar no botão do esqui para liberar a bota. Gente, é uma coisa super simples. Não quando você está com um esqui afundado na neve, sua perna está torta e você não tem coordenação motora. Veja este vídeo em 1:00, para provar como é super fácil tirar os esquis (quando você está em pé).
Eu, quase chorando falei que não dava. Ela, sem muita paciência, me levantou. Tive que sentar um tempo nos banquinhos que ficavam lá perto para me recuperar da raiva. Como já era hora do almoço, decidi parar e comer. Tirei os esquis, agora sentada e confortável e fui para o refeitório me deliciar com um hamburger e batata.
Depois do almoço, mais fortinha e satisfeita, decidi tentar de novo. Já estava toda dolorida, então não fazia mais muita diferença se ia cair ou não. Me sentia num episódio de Glee, porque minhas parceiras de aventura eram: uma indiana que não conseguia frear por nada e ainda caía na esteira, uma ucraniana que mal conseguia ficar em pé, uma latina que não conseguia falar inglês direito, não conseguia controlar a velocidade e levantar quando caía e finalmente uma chinesa que não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Todas elas da Kobo. Estou provando que não era a pior.
A galera do meu time (que era o Merchandising) já tinha passado de nível há muito tempo e estavam do outro lado da pista. Vi quando um deles levou uma queda e saiu bolando neve abaixo.
Arranjei um instrutor velhinho que me ajudou muito. Ele retirou os poles da minha mão e me ensinou a controlar as pernas, fazendo a pizza e a batata frita (pernas paralelas). Depois ele me mandou desviar de umas petecas coloridas, depois me mandou ir brincar. No final da tarde, eu já conseguia frear no meio da ladeira (uhhuuu!!) e olhar para a frente e não para o chão (uhhu!!). Outra instrutora viu que eu estava abalando e avisou que era hora de ir para o próximo nível.
Mas para ir para a outra pista, eu teria que pegar a cadeirinha. Quem já trabalhou na Disney e tem uma noção mínima de segurança sabe que a cadeirinha não é segura. Vejam o que perigo que é para sair da cadeira. Além do mais, eu tenho pavor de altura. Para completar, estava mais do que satisfeita com meu desempenho.
Quando eu já não tinha mais um músculo que não estivesse doendo, resolvi parar e conhecer a small town que tem no centro do Resort. Vale a pena dar uma olhada nas lojinhas, comprar um souvernir. Voltamos para Toronto umas 17h. Tive que voltar do lado de um hipster (aqueles de toucas e óculos), que queria porque queria puxar conversa comigo sobre os livros favoritos dele. A sorte era que estava passando um DVD de stand up comedy do Russell Peters e fingi que não estava escutando. Ele fala sobre as diferentes culturas, com o melhor e pior dos estereótipos. Russell Peters falando sobre árabes.
Fomos entregues às 19h em Toronto em frente à Kobo, e foi horrível ter que levantar e ir pra casa. Tudo em mim doía. Cheguei em casa e tomei dois Tylenois, certa que não ia conseguir levantar da cama no dia seguinte.
O importante é que me diverti, e não passei por nenhuma dessas situações aqui.
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